Foo Fighters: Back and Forth (idem/ 2011/ Dir. James Moll)
Gosto do Foo Fighters, mas nunca fui uma super fã. Mesmo assim, quando soube que um cinema da cidade exibiria um documentário sobre a banda acompanhado de uma apresentação em 3D me animei bastante e, felizmente, fui conferir. A verdade é que não sou uma das defensoras do 3D, mas tudo bem. Até agora não tive grandes experiências com esse formato, mas acredito que ele seja uma boa solução para o setor musical. Há pouco fui conferir uma apresentação do U2 e foi ótimo. Pois bem, troquei as fogueiras de São João e as típicas bombinhas e estrelinhas da época por uma sessão bem interessante.
A sessão foi dividida em duas partes. A primeira, composta pelo documentário Foo Fighters: Back and Forth que, apesar de convertida para o 3D, não apresenta absolutamente nenhuma necessidade disso. Já a segunda parte consiste em uma apresentação em estúdio, na íntegra, do novo álbum da banda, Wasting Light.
O documentário funciona tanto para fãs como para curiosos, pois além de abrangente, conta com histórias interessantes sobre o mundo do rock e ainda pode apostar no carisma dos entrevistados. Em especial do vocalista, Dave Grohl.
O ponto de partida não poderia ser diferente: a morte de Kurt Cobain e o consequente fim do Nirvana, banda da qual Grohl era baterista. Essa questão é abordada a fim de mostrar as condições em que o Foo Fighters foi criado e como foi esse início. A partir daí aborda-se a história da banda tendo como linha narrativa os sete álbuns lançados no decorrer da carreira até o já citado último lançamento. Ao traçar essa linha do tempo abordam-se diversas questões desde as muitas formações, brigas, discussões e mágoas até drogas, profissionalismo, amizade e dedicação. Tanto os atuais integrantes como os que já passaram pelo grupo têm a chance de contar a sua versão da história e a impressão final é de sinceridade. Uma carreira com altos e baixos, mas acima de tudo, com muito comprometimento. Música levada a sério.
Um documentário abrangente que consegue tratar da história da banda passando pelas principais questões que a definiu. É interessante observar o crescimento de cada integrante e como a vida deles também mudou. Começamos escutando e vendo imagens (muita imagem de arquivo interessante) de jovens interessados em fazer música e terminamos vendo como esses jovens se tornaram homens bem sucedidos com famílias e, principalmente, com consciência do valor e da importância da sua música. Em um determinado momento o baterista, Taylor Hawkins, fala sobre o incômodo que sente quando é questionado sobre ser uma estrela do rock. Ele diz que não é uma estrela, mas sim um músico.
Já a segunda parte funciona melhor para os fãs que já conhecem o novo trabalho. Por se tratar de uma apresentação em estúdio já não há a coisa do público e da animação geral. Além disso, se você não conhecer as músicas pode se tronar uma experiência cansativa, afinal a sessão é longa. Deixa a desejar pela limitação do formato escolhido, mas deve agradar aos mais dedicados.
Infelizmente foram apenas duas sessões, então quem não conseguiu lugar nas salas lotadas (apesar do São João) vai ter que ir atrás do DVD.
Para relembrar um dos principais sucessos – e certamente um dos clipes mais divertidos da banda, Learn To Fly:
E ainda a música que, de acordo com o grupo, costuma ser o ponto alto e, algumas vezes, o momento decisivo dos shows até hoje, All mi life:
Sobre o doc:
Agora? Aretha Franklin.
Mostrando postagens com marcador resenha fílmica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador resenha fílmica. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 27 de junho de 2011
domingo, 22 de maio de 2011
Thriller romântico de ficção científica
Adaptação de Philip K. Dick chega aos cinemas cheia de energia
Os agents do destino (The Adjustmen Bureau)
EUA/ 2011/ 106 min.
Direção: George Nolfi
Roteiro: George Nolfi, baseado no conto The adjustment Team de Philip K. Dick
Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie, John Slattery, Michael Kelly, Terence Stamp
“Conheci” o escritor americano de ficção científica, Philip K. Dick (1928 – 1982), sem saber que já o conhecia de certa maneira. Não lembro muito bem de como o contato aconteceu, mas acredito que tenha sido no momento em que assisti ao filme O Homem duplo (A scanner darkly/ Dir. Richard Linklater/ 2006). Gostei muito do que vi e, como se tratava de uma adaptação, saí de lá pensando: “Ok, preciso ler as coisas desse cara.” É o que venho tentando fazer desde então – a passos muito lentos, confesso. A surpresa desse primeiro momento foi descobrir que eu já tinha visto alguns trabalhos seus por mediação de terceiros. Ou seja, já tinha assistido a alguns filmes adaptados de seus livros.
Pois é, se você nunca leu as obras de Philip K. Dick é muito provável que já tenha visto alguma adaptação sua. O já citado O Homem duplo, Minority Report - a nova lei (Minority Report/ Dir. Steven Spielberg/ 2002) e Blade Runner - o caçador de andróides (Blade Runner/ Dir. Ridley Scott/ 1982), são algumas delas. Vale ressaltar que Blade Runner foi o primeiro livro dele a ser levado às telonas e isso aconteceu no ano da morte do autor.
De 82 para cá outros livros foram adaptados. Caso de Os agentes do destino, thriller romântico de ficção científica. Nesse caso não poderei traçar paralelos uma vez que não li – ainda - o conto que deu origem ao filme. Mas, de qualquer forma, literatura e cinema são mesmo linguagens distintas então vamos ao filme:
A questão primordial que embala o enredo se trata de uma questão universal: até que ponto temos controle sobre eventos e situações que acontecem conosco? Como a nossa vida é regida? Seria por meio do acaso ou estaríamos todos sujeitos ao destino e seu plano previamente determinado? Essa é a base do enredo que conta a história de David Norris (Matt Damon), um político promissor que descobre que a realidade pode não ser apenas aquilo que parece. Após um contato inusitado e imprevisto com os agentes do destino do título, a perspectiva de Norris será profundamente alterada. A situação se complica quando ele descobre que não poderá procurar por uma misteriosa mulher, Elise Sellas (Emily Blunt), que conheceu em um momento vulnerável e por quem desenvolveu sentimentos fortes. A verdade é que tais questões filosóficas são levantadas, mas a discussão não chega a ser aprofundada.
Apesar de Os agentes do destino não desenvolver esse assunto e não se enveredar por questões referentes ao destino, controle e Deus mais intensamente, o longa consegue se apresentar de maneira redonda. Primeiramente, pode-se ressaltar a química entre os protagonistas. Quando começaram a sair as primeiras notícias de que Matt Damon e Emily Blunt formariam um par romântico em um filme fui cética. Na verdade, permaneci dessa maneira até ver a primeira cena dos dois juntos. Funciona, eles estão à vontade e o contraste de seus personagens se complementa na tela. Além disso, vale ressaltar a tensão bem construída do longa. A narrativa vai se desenvolvendo aos pouquinhos, sem revelar completamente a que veio, e consegue estabelecer o suspense necessário para a história. A montagem e a trilha sonora contribuem muito para isso e merecem destaque. O ponto mais fraco do filme fica mesmo a cargo do didatismo em excesso que aparece lá pela metade da projeção. Há uma explicação explícita dos eventos do roteiro e isso prejudica o todo, mas infelizmente, filmões de Hollywood costumam seguir essa tendência, não é? Afinal, para que estimular o raciocínio dos espectadores se tudo pode ser entregue já bem mastigado para evitar indigestão e, principalmente, para evitar que alguém engasgue?
A história apresenta um quê de ficção científica, mas também se mostra como um thriller de ação com emoção e corrida contra o tempo. Além disso, também é um romance. É difícil conciliar gêneros distintos em um filme como esse. Ás vezes acontece de uma parte se sobrepor a uma segunda que acaba parecendo estar fora do lugar. No caso de Os agentes do destino é importante observar que os elementos estão muito bem balanceados. Na medida certa para agradar homens e mulheres e, assim, conquistar um público mais abrangente.
Essa foi a estréia de George Nolfi na direção. Antes disso ele foi responsável pelo roteiro de O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum/ Dir. Paul Greengrass/ 2007) e de 12 homens e outro segredo (Ocean’s Twelve/ Dir. Steven Soderbergh/ 2004). O resultado da experiência foi um filme bem amarrado, eletrizante, divertido e romântico.
Marcadores:
filmes,
Livros,
resenha fílmica
sábado, 26 de março de 2011
“Há muito poucas coisas: silêncio e palavras”
Dor, lembrança, memória e superação se misturam na busca pela tranquilidade
A vida secreta das palavras (La Vida Secreta de las Palabras)
2005/Espanha/ 115min.
Direção e roteiro: Isabel Coixet
Elenco: Sarah Polley, Tim Robbins, Javier Cámara, Eddie Marsan, Leonor Watling.
Hanna (Sarah Polley) é uma mulher reservada, metódica, objetiva, solitária e misteriosa que tenta esquecer seu passado. Não fala muito e vive para si mesma por meio de uma rotina rigorosa que envolve ir ao trabalho pontualmente – sem jamais ter faltado um único dia – e comer sempre a mesma refeição composta por uma pequena poção de arroz branco, galinha e meia maçã.
Apesar de ser uma funcionária exemplar, sua presença incomoda os demais trabalhadores. Sendo assim, Hanna é incentivada, ou melhor, é convidada a tirar férias. Ao invés de relaxar em algum paraíso tropical, vai trabalhar como enfermeira em uma plataforma de petróleo na qual, após um acidente, Josef (Tim Robbins) se encontra em uma situação complicada com queimaduras pelo corpo, além de estar temporariamente cego.
Tratando dessa maneira, o filme poderia se tratar de um simples romance entre dois indivíduos que se cruzam por um acaso e descobrem o amor, mas não é exatamente isso... A vida secreta das palavras vai além do óbvio e apresenta ao espectador uma obra construída através de camadas finas e delicadas que devem ser apreciadas e analisadas com cuidado, além de representarem a possibilidade de diferentes interpretações para cada olhar que se permitir enxergar o longa.
Nas palavras da própria diretora: “Um filme sobre o peso do passado. Sobre o súbito silêncio que é produzido antes de uma tempestade... E, acima de qualquer outra coisa, sobre o poder do amor até nas mais terríveis circunstâncias.” (Tradução livre).
Não se sabe muito sobre Hanna. A narrativa é construída de maneira que o espectador tenha conhecimento apenas do mínimo necessário em relação á personagem. Não se sabe de onde ela vem (conhece-se apenas um sotaque do leste europeu) ou por que ela vive da maneira que vive. Não se sabe como ela ficou quase surda (Hanna utiliza um aparelho de surdez que, quando desligado, a deixa sem escutar praticamente nada. Ela costuma fazê-lo quando quer ficar sozinha) ou mesmo por que ela está sempre só. É como se a própria Hanna quisesse esquecer de si mesma, como se estivesse apenas esperando. Pelo quê? Também não se sabe. É como se escuta na narração em off em um determinado momento do filme: “matando o tempo antes que ele mate você”. Ela quer se desvincular do seu passado, mas para isso, também quer esquecer do seu presente, afinal, diz o ditado que a vida continua. Mas continua mesmo? Para quem? Como se segue adiante?
As respostas são mantidas distante dos espectadores que se envolvem com Hanna e suas questões mesmo sem saber realmente quem é essa mulher. As revelações para essas perguntas (ou pelo menos para uma parte delas) serão apresentadas mais à frente, depois de muita história.
Ao ser forçada a deixar a sua rotina “confortável”, Hanna é obrigada a encarar certas questões. Primeiro precisa decidir o que fazer com tanto tempo livre. Ela se espanta ao constatar que suas férias consistem em um mês inteiro.
Apesar das suas decisões, ela acaba sabendo da vaga na plataforma de petróleo. O que pode ser melhor para esquecer de si mesma e dos seus problemas do que manter a mente ocupada com o trabalho, não é? Mas essa oportunidade de emprego se mostrará muito mais do que isso. Embora ela tenha necessidade de estar só, fora do contato humano, Hanna precisará reavaliar muitas questões.
Após um acidente na plataforma em questão um funcionário morre e outro, o já citado Josef, permanece em um estado complicado de saúde. Esse acontecimento resulta no fechamento parcial da plataforma. Sendo assim, os trabalhadores do local, cerca de sete homens, ficam suspensos por incertezas. Não se sabe o destino da plataforma nem, consequentemente, o destino daqueles que nela habitam.
Ao conversar com a recém-chegada, Dimitri, o responsável pelo estabelecimento, ressalta que esse é um ambiente composto, em sua maioria, por pessoas que querem ser deixadas em paz por um motivo ou por outro. Mas a situação atual altera a perspectiva geral. Com o fechamento da plataforma, até mesmo o ruído alto das máquinas vai embora. Resta apenas o silêncio e a incerteza dessas vidas sobre o mar que recebe milhares de ondas diariamente sem nem mesmo sentir.
No espaço confinado em alto mar conhece-se o já citado Dimitri - uma dessas pessoas que querem ser deixadas em paz – Josef; Abdul que trabalha com a limpeza; Scott e Liam, responsáveis pela sala de máquinas; Martin, o oceanógrafo que trabalha com pesquisas sobre o impacto do mar na plataforma e também sobre o impacto do trabalho realizado pela plataforma no mar e, mais especificamente, na vida dos mexilhões do local e Simon (Javier Cámara de Fale com ela), o cozinheiro espanhol.
Pessoas tão diferentes que precisam conviver em um mesmo espaço físico relativamente grande, mas que estando aparte de tudo, torna-se tão pequeno. Cada um, à sua maneira, tenta fugir dos seus próprios demônios e fantasmas. Cada um precisa esquecer de algo ou ainda, lembrar-se de alguma outra coisa. Faz-se necessário estabelecer seus próprios rituais para que a sanidade seja mantida.
Seja através do amor e do contato físico clandestino como no caso de dois dos personagens, homens casados que, estando tão distantes de casa, necessitam ser relembrados de certas sensações e do carinho através da cumplicidade física e emocional um do outro.
Seja através da vontade de testar suas habilidades e manter-se são através dos aromas, dos sabores e da arte, caso de Simon, o cozinheiro. A cada dia ele prepara uma refeição específica de alguma parte do mundo. Sempre algo diferente que é preparado enquanto se escuta música típica do local de onde a comida em questão se origina.
É a partir dessa nova realidade e desses novos confrontos que Hanna precisa reencontrar-se em si mesma. Durante a sua estadia na plataforma de petróleo, ela passa a ter o contato humano que há tanto tempo vinha evitando. Principalmente através da relação que estabelece com o seu paciente. Ambos, cada um carregando suas próprias bagagens e ferimentos, passam a conviver e conversar diariamente. Essa troca, por vezes bem humorada, melancólica, triste, misteriosa e profunda molda os dois dentro de novas perspectivas.
A partir do momento em que Hanna se vê constantemente confrontada pelos questionamentos e conversas incansáveis de Josef ela passa a encarar seus próprios medos e a possibilidade de mudança.
Uma passagem importante que sinaliza a quebra de algo importante dentro da personagem chega através da gastronomia. Há quanto tempo Hanna se alimenta apenas de arroz, galinha e maçã? Não se sabe ao certo, mas é possível constatar que tal hábito já vem sendo cultivado há muito tempo e que a sua rotina nunca é quebrada. Pelo menos até então. Quando ela finalmente decide compartilhar alguma informação relevante com Josef – que gosta de arroz, galinha e maçã – ele não consegue acreditar que ela goste apenas disso. O lampejo de cumplicidade é ameaçado e, em seguida, ao encontra-se sozinha, Hanna entrega-se a novos sabores. Esse é o momento-chave da mudança. Seu nervosismo e ansiedade são visíveis. Seria esse um reflexo da necessidade de mudar?
A convivência entre Josef e Hanna vai mudar o destino dos dois. A elaboração da confiança e do companheirismo dos dois vai sendo construída com o passar do tempo no qual ambos têm a oportunidade de refletir e, principalmente, compartilhar as suas feridas. Os dois se ajudam a entender já que certas marcas não podem ser apenas superadas e esquecidas. Seus fardos são divididos a partir do momento que um enxerga no outro a possibilidade de se compreender.
A parceria entre a atriz Sarah Polley e a cineasta Isabel Coixet não é novidade. Em 2003 as duas trabalharam juntas no longa Minha vida sem mim que apresenta muitos pontos em comum com A vida secreta das palavras como uma história simples que desemboca em subtextos complexos, a estética naturalista, a delicadeza, a sutileza, a sensibilidade à flor da pele e a estética minimalista. Muito do estilo da diretora se apresenta nos dois filmes.
É importante ressaltar que a parceria entre as duas vem dando certo. Mais uma vez Sarah Polley entrega uma atuação belíssima que funciona perfeitamente ao lado de Tim Robbins. Todo o elenco está afinado e realiza um trabalho muito competente.
A vida secreta das palavras é muito consistente na sua narrativa. A trama é muito bem construída. No início do filme não se imagina o desfecho que nos espera e, no entanto, os elementos vão se apresentando aos poucos até que cada ponta seja devidamente amarrada.
Além disso, trata-se de um deleite visual. Mais uma vez – como aconteceu no já citado trabalho anterior da diretora, Minha vida sem mim – Isabel Coixet aposta no naturalismo, cenários e personagens que se aproximam do real. Eles são tão palpáveis que poderiam ser/estar ao nosso lado. Maquiagem, figurino, iluminação... tudo é apresentado de maneira bem natural.
Outro aspecto importante é a maneira característica com que a diretora utiliza a câmera nos seus filmes. Ela está constantemente na mão, o que confere um leve balançar as cenas. Além disso, observa-se também que essa câmera é bastante furtiva. Apresenta-se a uma certa distância, com algum objeto à frente para revelar, em segundo plano, o foco da cena.
A montagem é fluida e tranquila auxiliada, muitas vezes, por fades in e out (desaparecimento e reaparecimento gradual da imagem em uma tela preta). Esse recurso ajuda a estabelecer a “lentidão” do filme. Essa lentidão não é cansativa e nem mesmo massiva. Personagens e espectadores podem tomar o seu tempo para absorver e processar o que se passa diante deles. Tanto Hanna como Josef precisam viver um dia de cada vez para, assim, entender melhor o que está acontecendo com eles e, principalmente, para que possam se permitir ou não. Sua feridas invisíveis necessitam de tempo.
Assim como em Minha vida sem mim, O silêncio das palavras se trata de um filme introspectivo. Não há excessos. A ação se desenrola gradativamente e o filme se apresenta de maneira serena, delicada e lenta, como precisa ser digerido. As camadas se revelam aos poucos.
É como a narração do filme ressalta: “Disse-lhes antes, não foi? Há muito poucas coisas: silêncio e palavras.” É no silêncio que Hanna quer esquecer e, principalmente, ser esquecida. É nesse silêncio que ela precisa se confinar. Assim como Josef carrega o seu próprio silêncio. Mas é através das palavras que eles passam a se reencontrar. Sim, palavras nem sempre são doces. Palavras que revelam e relembram. Que ajudam a reviver infernos particulares, mas ainda assim palavras que levam à compressão.
Afinal é por meio dessa convivência e dessa cumplicidade que passamos a nos entender melhor. É durante alguns momentos de confiança genuína que fardos impensáveis podem ser, ao menos, um pouco aliviados ainda que isso não possa ser feito completamente.
Um filme absolutamente cinematográfico, esteticamente maravilhoso que ressalta a relevância das palavras e do diálogo. Como uma cronista, Isabel Coixet mergulha em temas cotidianos para construir uma narrativa lírica, precisa, delicada e profunda.
Agora? Zaz.
A vida secreta das palavras (La Vida Secreta de las Palabras)
2005/Espanha/ 115min.
Direção e roteiro: Isabel Coixet
Elenco: Sarah Polley, Tim Robbins, Javier Cámara, Eddie Marsan, Leonor Watling.
Hanna (Sarah Polley) é uma mulher reservada, metódica, objetiva, solitária e misteriosa que tenta esquecer seu passado. Não fala muito e vive para si mesma por meio de uma rotina rigorosa que envolve ir ao trabalho pontualmente – sem jamais ter faltado um único dia – e comer sempre a mesma refeição composta por uma pequena poção de arroz branco, galinha e meia maçã.
Apesar de ser uma funcionária exemplar, sua presença incomoda os demais trabalhadores. Sendo assim, Hanna é incentivada, ou melhor, é convidada a tirar férias. Ao invés de relaxar em algum paraíso tropical, vai trabalhar como enfermeira em uma plataforma de petróleo na qual, após um acidente, Josef (Tim Robbins) se encontra em uma situação complicada com queimaduras pelo corpo, além de estar temporariamente cego.
Tratando dessa maneira, o filme poderia se tratar de um simples romance entre dois indivíduos que se cruzam por um acaso e descobrem o amor, mas não é exatamente isso... A vida secreta das palavras vai além do óbvio e apresenta ao espectador uma obra construída através de camadas finas e delicadas que devem ser apreciadas e analisadas com cuidado, além de representarem a possibilidade de diferentes interpretações para cada olhar que se permitir enxergar o longa.
Nas palavras da própria diretora: “Um filme sobre o peso do passado. Sobre o súbito silêncio que é produzido antes de uma tempestade... E, acima de qualquer outra coisa, sobre o poder do amor até nas mais terríveis circunstâncias.” (Tradução livre).
Não se sabe muito sobre Hanna. A narrativa é construída de maneira que o espectador tenha conhecimento apenas do mínimo necessário em relação á personagem. Não se sabe de onde ela vem (conhece-se apenas um sotaque do leste europeu) ou por que ela vive da maneira que vive. Não se sabe como ela ficou quase surda (Hanna utiliza um aparelho de surdez que, quando desligado, a deixa sem escutar praticamente nada. Ela costuma fazê-lo quando quer ficar sozinha) ou mesmo por que ela está sempre só. É como se a própria Hanna quisesse esquecer de si mesma, como se estivesse apenas esperando. Pelo quê? Também não se sabe. É como se escuta na narração em off em um determinado momento do filme: “matando o tempo antes que ele mate você”. Ela quer se desvincular do seu passado, mas para isso, também quer esquecer do seu presente, afinal, diz o ditado que a vida continua. Mas continua mesmo? Para quem? Como se segue adiante?
As respostas são mantidas distante dos espectadores que se envolvem com Hanna e suas questões mesmo sem saber realmente quem é essa mulher. As revelações para essas perguntas (ou pelo menos para uma parte delas) serão apresentadas mais à frente, depois de muita história.
Ao ser forçada a deixar a sua rotina “confortável”, Hanna é obrigada a encarar certas questões. Primeiro precisa decidir o que fazer com tanto tempo livre. Ela se espanta ao constatar que suas férias consistem em um mês inteiro.
Apesar das suas decisões, ela acaba sabendo da vaga na plataforma de petróleo. O que pode ser melhor para esquecer de si mesma e dos seus problemas do que manter a mente ocupada com o trabalho, não é? Mas essa oportunidade de emprego se mostrará muito mais do que isso. Embora ela tenha necessidade de estar só, fora do contato humano, Hanna precisará reavaliar muitas questões.
Após um acidente na plataforma em questão um funcionário morre e outro, o já citado Josef, permanece em um estado complicado de saúde. Esse acontecimento resulta no fechamento parcial da plataforma. Sendo assim, os trabalhadores do local, cerca de sete homens, ficam suspensos por incertezas. Não se sabe o destino da plataforma nem, consequentemente, o destino daqueles que nela habitam.
Ao conversar com a recém-chegada, Dimitri, o responsável pelo estabelecimento, ressalta que esse é um ambiente composto, em sua maioria, por pessoas que querem ser deixadas em paz por um motivo ou por outro. Mas a situação atual altera a perspectiva geral. Com o fechamento da plataforma, até mesmo o ruído alto das máquinas vai embora. Resta apenas o silêncio e a incerteza dessas vidas sobre o mar que recebe milhares de ondas diariamente sem nem mesmo sentir.
No espaço confinado em alto mar conhece-se o já citado Dimitri - uma dessas pessoas que querem ser deixadas em paz – Josef; Abdul que trabalha com a limpeza; Scott e Liam, responsáveis pela sala de máquinas; Martin, o oceanógrafo que trabalha com pesquisas sobre o impacto do mar na plataforma e também sobre o impacto do trabalho realizado pela plataforma no mar e, mais especificamente, na vida dos mexilhões do local e Simon (Javier Cámara de Fale com ela), o cozinheiro espanhol.
Pessoas tão diferentes que precisam conviver em um mesmo espaço físico relativamente grande, mas que estando aparte de tudo, torna-se tão pequeno. Cada um, à sua maneira, tenta fugir dos seus próprios demônios e fantasmas. Cada um precisa esquecer de algo ou ainda, lembrar-se de alguma outra coisa. Faz-se necessário estabelecer seus próprios rituais para que a sanidade seja mantida.
Seja através do amor e do contato físico clandestino como no caso de dois dos personagens, homens casados que, estando tão distantes de casa, necessitam ser relembrados de certas sensações e do carinho através da cumplicidade física e emocional um do outro.
Seja através da vontade de testar suas habilidades e manter-se são através dos aromas, dos sabores e da arte, caso de Simon, o cozinheiro. A cada dia ele prepara uma refeição específica de alguma parte do mundo. Sempre algo diferente que é preparado enquanto se escuta música típica do local de onde a comida em questão se origina.
É a partir dessa nova realidade e desses novos confrontos que Hanna precisa reencontrar-se em si mesma. Durante a sua estadia na plataforma de petróleo, ela passa a ter o contato humano que há tanto tempo vinha evitando. Principalmente através da relação que estabelece com o seu paciente. Ambos, cada um carregando suas próprias bagagens e ferimentos, passam a conviver e conversar diariamente. Essa troca, por vezes bem humorada, melancólica, triste, misteriosa e profunda molda os dois dentro de novas perspectivas.
A partir do momento em que Hanna se vê constantemente confrontada pelos questionamentos e conversas incansáveis de Josef ela passa a encarar seus próprios medos e a possibilidade de mudança.
Uma passagem importante que sinaliza a quebra de algo importante dentro da personagem chega através da gastronomia. Há quanto tempo Hanna se alimenta apenas de arroz, galinha e maçã? Não se sabe ao certo, mas é possível constatar que tal hábito já vem sendo cultivado há muito tempo e que a sua rotina nunca é quebrada. Pelo menos até então. Quando ela finalmente decide compartilhar alguma informação relevante com Josef – que gosta de arroz, galinha e maçã – ele não consegue acreditar que ela goste apenas disso. O lampejo de cumplicidade é ameaçado e, em seguida, ao encontra-se sozinha, Hanna entrega-se a novos sabores. Esse é o momento-chave da mudança. Seu nervosismo e ansiedade são visíveis. Seria esse um reflexo da necessidade de mudar?
A convivência entre Josef e Hanna vai mudar o destino dos dois. A elaboração da confiança e do companheirismo dos dois vai sendo construída com o passar do tempo no qual ambos têm a oportunidade de refletir e, principalmente, compartilhar as suas feridas. Os dois se ajudam a entender já que certas marcas não podem ser apenas superadas e esquecidas. Seus fardos são divididos a partir do momento que um enxerga no outro a possibilidade de se compreender.
A parceria entre a atriz Sarah Polley e a cineasta Isabel Coixet não é novidade. Em 2003 as duas trabalharam juntas no longa Minha vida sem mim que apresenta muitos pontos em comum com A vida secreta das palavras como uma história simples que desemboca em subtextos complexos, a estética naturalista, a delicadeza, a sutileza, a sensibilidade à flor da pele e a estética minimalista. Muito do estilo da diretora se apresenta nos dois filmes.
É importante ressaltar que a parceria entre as duas vem dando certo. Mais uma vez Sarah Polley entrega uma atuação belíssima que funciona perfeitamente ao lado de Tim Robbins. Todo o elenco está afinado e realiza um trabalho muito competente.
A vida secreta das palavras é muito consistente na sua narrativa. A trama é muito bem construída. No início do filme não se imagina o desfecho que nos espera e, no entanto, os elementos vão se apresentando aos poucos até que cada ponta seja devidamente amarrada.
Além disso, trata-se de um deleite visual. Mais uma vez – como aconteceu no já citado trabalho anterior da diretora, Minha vida sem mim – Isabel Coixet aposta no naturalismo, cenários e personagens que se aproximam do real. Eles são tão palpáveis que poderiam ser/estar ao nosso lado. Maquiagem, figurino, iluminação... tudo é apresentado de maneira bem natural.
Outro aspecto importante é a maneira característica com que a diretora utiliza a câmera nos seus filmes. Ela está constantemente na mão, o que confere um leve balançar as cenas. Além disso, observa-se também que essa câmera é bastante furtiva. Apresenta-se a uma certa distância, com algum objeto à frente para revelar, em segundo plano, o foco da cena.
A montagem é fluida e tranquila auxiliada, muitas vezes, por fades in e out (desaparecimento e reaparecimento gradual da imagem em uma tela preta). Esse recurso ajuda a estabelecer a “lentidão” do filme. Essa lentidão não é cansativa e nem mesmo massiva. Personagens e espectadores podem tomar o seu tempo para absorver e processar o que se passa diante deles. Tanto Hanna como Josef precisam viver um dia de cada vez para, assim, entender melhor o que está acontecendo com eles e, principalmente, para que possam se permitir ou não. Sua feridas invisíveis necessitam de tempo.
Assim como em Minha vida sem mim, O silêncio das palavras se trata de um filme introspectivo. Não há excessos. A ação se desenrola gradativamente e o filme se apresenta de maneira serena, delicada e lenta, como precisa ser digerido. As camadas se revelam aos poucos.
É como a narração do filme ressalta: “Disse-lhes antes, não foi? Há muito poucas coisas: silêncio e palavras.” É no silêncio que Hanna quer esquecer e, principalmente, ser esquecida. É nesse silêncio que ela precisa se confinar. Assim como Josef carrega o seu próprio silêncio. Mas é através das palavras que eles passam a se reencontrar. Sim, palavras nem sempre são doces. Palavras que revelam e relembram. Que ajudam a reviver infernos particulares, mas ainda assim palavras que levam à compressão.
Afinal é por meio dessa convivência e dessa cumplicidade que passamos a nos entender melhor. É durante alguns momentos de confiança genuína que fardos impensáveis podem ser, ao menos, um pouco aliviados ainda que isso não possa ser feito completamente.
Um filme absolutamente cinematográfico, esteticamente maravilhoso que ressalta a relevância das palavras e do diálogo. Como uma cronista, Isabel Coixet mergulha em temas cotidianos para construir uma narrativa lírica, precisa, delicada e profunda.
Agora? Zaz.
Marcadores:
citações,
filmes,
resenha fílmica
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Amor e tormento
Adaptação discute o ciúme da relação.
"Paixão é o ingrediente da segurança", diz personagem.
Malu de bicicleta (idem/ 2010/ Brasil/ 96min.)
Direção: Flávio Tamberllini
Roteiro: Marcelo Rubens Paiva
Elenco: Marcelo Serrado, Fernanda de Freitas, Marjorie Estiano, Otavio Martins, Daniela Galli, Maria Manoella, Marcos Cesana
Baseado no livro homônimo do escritor Marcelo Rubens Paiva – também responsável pelo roteiro do longa – Malu de Bicicleta é uma espécie de Dom Casmurro moderno para jovens. A própria protagonista, Fernanda de Freitas, revelou em entrevista que leu Dom Casmurro (Machado de Assis) antes mesmo de ler a obra adaptada a pedido do próprio diretor.
Luiz é um empresário paulista que trabalha na noite. Solteiro convicto coleciona casos amorosos e também papéis com nomes e números de telefone. Sua sede de conquista faz com que esse “passa tempo” se torne mais complexo. Depois da reação violenta de uma garota descartada, Luiz decide passar um tempo no Rio de Janeiro. Lá, conhece a Malu do título e esse relacionamento vai mudar a sua maneira de encarar o romance. Mas vai também introduzi-lo no confuso mundo da posse e do ciúme.
O filme é conduzido de maneira leve através de uma montagem dinâmica. Outro fator que contribui com essa leveza são as pitadas de comédia introduzidas através do bom humor do roteiro que ajudam a suavizar o tema principal, o ciúme. O fato de o longa ser narrado em primeira pessoa pelo próprio Luiz que conversa com o espectador como se falasse com um amigo é mais um aspecto que ajuda a produzir esse resultado.
O elenco funciona muito bem. A química entre os dois protagonistas merece destaque especial. Os dois mal se conheciam antes das filmagens, mas isso não foi um problema. Na tela ambos conseguem dar vida aos personagens, evitam a caricatura e funcionam muito bem juntos. Ela está ótima como uma moça misteriosa e independente. Já ele consegue manter tanto o bom humor como a insegurança e o tormento causado pela posse.
Assim como acontece em Dom Casmurro, Malu de Bicicleta é apresentado sob o ponto de vista do protagonista masculino. Dessa maneira, o espectador acompanha a trajetória do empresário, mas não tem certeza do quanto daquilo que o perturba é real e o quanto é fruto da sua imaginação uma vez que não tem acesso às demais perspectivas da história.
Apesar da tentativa de traçar um retrato do ciúme e de como esse sentimento pode nascer e corroer uma relação, o filme não aprofunda o tema. Naturalmente a ideia não é exatamente elaborar uma tese sobre o assunto através de uma comédia romântica, mas a partir do momento em que se prolonga nele sem passar de fato para outro nível, torna-se um pouco longo e cansativo.
Outro aspecto negativo é que, em determinados momentos, o filme se torna um tanto forçado através de uma ação que se mostra de maneira irreal. Um exemplo disso é a cena em que Luiz é atacado pela já citada garota descartada. Nela, a moça aponta uma faca para o protagonista. Sem aviso algum (vale ressaltar também que nenhum dos dois estava gritando e que tudo isso se passa em um sala localizada em uma boate. Ou seja, havia bastante barulho do lado de fora) três funcionários do local chegam para ajudar o rapaz. Tudo se passa de maneira rápida e não muito crível, mas não botam tudo a perder.
Malu de bicicleta apresenta alguns deslizes, mas não decepciona. É interessante e bem acabado. Vale ressaltar que o filme foi um dos destaques do 3º festival de Paulínea que aconteceu no ano passado. Levou os prêmios de direção, ator e atriz.
Marcelo Rubens Paiva comentou suas experiências na produção no seu blog.
Mas a relação do escritor com o cinema não acaba por aqui. Antes da adaptação de Malu, outro livro seu foi levado ás telonas: Feliz ano velho. E ainda há três produções em andamento: E aí, comeu? está planejado para ser filmado esse ano; A segunda vez que te conheci, último romance escrito por Marcelo, também será adaptado e, por fim, No retrovisor (romance levado aos palcos em 2007 pelo próprio Marcelo Serrado) também vai virar filme.
Agora? The Beatles e The Smiths.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
O retorno do Capitão Nascimento

José Padilha consegue estabelecer um diálogo consistente entre o arrasa quarteirão e a reflexão
Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro
Brasil/ 2010/ 116 min
Direção: José Padilha
Roteiro: José Padilha, Bráulio Mantovani
Elenco: Wagner Moura, André Ramiro, Maria Ribeiro, Pedro Van Held, Irandhir Santos, Seu Jorge, Milhem Cortaz, Fernanda Machado, Tainá Müller
A verdade é que quando a notícia de que Tropa de Elite teria uma continuação começou a ser divulgada eu fiquei receosa. Continuações não costumam ser muito boas e, geralmente, conseguem afundar um bom trabalho. Além do mais, filmes de sucesso que se destacam na bilheteria podem cair na tentação de uma sequencia que vise apenas lucros. Sendo assim, o meu receio foi grande. Felizmente essa preocupação se mostrou infundada e Tropa de Elite 2 – o inimigo agora é outro chega às telas de maneira competente e, acima de tudo, muito consistente.
Desde o primeiro longa, passaram-se 15 anos e, agora, Capitão Nascimento (o ótimo Wagner Moura) continua no BOPE, mas deixou as ações externas em função do cargo de Tenente-coronel. O seu antigo posto está sob o comando do Capitão Matias (André Ramiro), apresentado ao público no primeiro filme, mas que no decorrer de mais de uma década amadureceu e deixa de ser um aprendiz (aspira) para se tornar um profissional completo.

O ponto de vista dos caveiras é o mesmo e, no meio do caminho do Tenente-coronel Nascimento está o ativista dos direitos humanos, Fraga (Irandhir Santos), que se posiciona contra os métodos do BOPE. Após complicações em uma ação, o Capitão Nascimento é levado á trabalhar como subsecretário de segurança pública do Rio de Janeiro. É a partir do momento que ele passa para “o outro lado” que a sua percepção de certo/errado e também do inimigo do título começa a ser ampliada.
O interessante é que os dois filmes conseguem manter uma unidade tanto estética como narrativa, mas isso não significa dizer que se trate de uma repetição. Pelo contrário, com o segundo longa a narrativa consegue avançar em relação à história apresentada no primeiro filme. Aprofundam-se os temas abordados anteriormente e o longa deixa de ser centrado em um personagem para ampliar o seu foco para um tema maior. Nesse caso, a corrupção no poder público.
A problemática pessoal e familiar do Capitão Nascimento é mantida. Os conflitos desse com o seu filho adolescente e a relação abalada com a sua ex-mulher têm espaço na trama, mas o verdadeiro foco é mesmo a corrupção.
José Padilha trabalha tanto com o documentário como com a ficção e, nesse filme, volta a abordar uma estética híbrida que mescla elementos de um e de outro estilo. Os créditos iniciais ressaltam que, apesar das semelhanças, Tropa se trata de uma ficção, não estão ali por acaso. Realmente a história e os personagens são fictícios, mas a crítica à realidade é explícita e, apesar das frases de efeito, dos momentos heroicos e de alguns clichês, a semelhança com o real é palpável. Já na questão estética esse hibridismo também é percebido, por exemplo, através do recurso recorrente da câmera na mão que provoca a sensação de que as cenas filmadas são de fato verídicas e remetem à estética documental.
O elenco se destaca e dá um show à parte. Os antigos e os novos personagens são apresentados de maneira competente e, embora alguns deles sejam um tanto caricatos (à exemplo do apresentador de TV), funciona muito bem para a trama.
Outro aspecto que corrobora para o destaque do filme é o fato de a trama abordar as eleições e como a corrupção pode afetar esse processo. Apesar de José Padilha afirmar que a estreia às vésperas do segundo turno presidencial tenha sido uma coincidência, não se pode negar que essa seja uma coincidência feliz, afinal além de agitar e incrementar a discussão, deve contribuir para um maior número de espectadores.

Mas o principal mérito do longa consiste no fato de conseguir dialogar entre um clássico arrasa quarteirão, com direito a violência, tiros, explosões, frases de efeito, clichês e muita briga, e um filme capaz de provocar reflexão e um debate que vai além da sala de projeção. O resultado é um trabalho bem estruturado capaz de dialogar com um maior número de pessoas. O público lucraria muito se mais obras conseguissem esse feito.
Adrenalina do começo ao fim, Tropa de Elite 2 é um daqueles filmes que prendem a atenção desde o início. Mas felizmente provoca mais do que apenas cerca de duas horas de abstração.
Agora? Stereophonics.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Auto - ajuda rasa

Comer Rezar Amar
Adaptação entrega o básico, mas decepciona
Comer Rezar Amar (Eat Pray Love)
EUA/ 2010/ 133 min
Direção: Ryan Murphy
Roteiro: Ryan Murphy, Jennifer Salt
Elenco: Julia Roberts, Billy Crudup, James Franco, Richard Jenkins, Javier Bardem, David Lyons...
A jornalista e escritora americana, Elizabeh Gilbert, decidiu fazer uma viagem libertadora após algumas complicações e decepções. Durante esse período visitou a Itália, a Índia e a Indonésia. Partiu para um jornada individual que abrangeu diversos setores da sua vida. Em especial, aqueles que intitulam a obra, o gastronômico, o espiritual e o sentimental. As memórias dessa aventura compuseram o livro Comer Rezar Amar que virou um best-seller com mais de oito milhões de exemplares vendidos. O livro figurou na lista de mais vendidos do New York Times por mais de um ano e foi traduzido para 36 idiomas. Agora, foi adaptado para o cinema.
O problema é que no cinema a coisa desanda e a sensação que fica é que a proposta foi filmada, mas que, ao chegar à finalização, a equipe teve preguiça de concluir o trabalho.
No filme, Julia Roberts dá vida à escritora em um papel que não exige muito da atriz que já está acostumada à esse estilo de longa e, apesar do seu já conhecido e consagrado carisma, não consegue salvar o longa. Além dela, o elenco também conta com importantes participações como James Franco (Homem Aranha) e Javier Barden (Mar Adentro), mas a contribuição de bons atores também não consegue segurar o texto fraco e a falta de profundidade do enredo.
Assim como acontece com uma boa parte das adaptações literárias para às telas, o filme cai no erro de recorrer demasiadamente a recursos verbais. Cenas que poderiam ser facilmente compreendidas através da atuação acabam redundantes quando sobrepostas pela narração em off da personagem (à exemplo as cenas iniciais que pretendem retratar o que Elizabeth sente e pelo que passa internamente ao estar casada com o seu primeiro marido). Isso acaba fazendo com que o longa perca um pouco da dramaticidade e acabe mais didático do que o necessário.
Os 133 minutos de projeção se mostram intermináveis e, apesar da longa duração, os personagens e até mesmo a história de Elizabeth continuam extremamente rasos, após o término da exibição. A personagem começa confusa, precisando de uma mudança drástica, segue viagem e vive as experiências que precisa, mas o espectador não consegue ir muito além do que essa primeira camada oferece.
Além disso, a própria montagem deixa a desejar. Não trabalha bem as imagens e eventualmente adota cortes abruptos que não condizem com o ritmo do longa. Essa mesma falta de sincronia pode ser observada na trilha sonora que, apesar de belas músicas, nem sempre consegue casar imagem e som. Os elementos portanto se mostram um tanto fora do contexto.
A fotografia é interessante, em especial nas cenas referentes à gastronomia. Me fez pensar, inclusive, em Julie e Julia. Filme que tem esse tema como foco e, no entanto, não explora a beleza da gastronomia. Nesse quesito Comer Rezar Amar consegue desempenhar um bom trabalho.
Outro aspecto extremamente comentado a respeito da adaptação é o uso exagerado de estereótipos. Antes de ser lançado no Brasil o filme foi exibido na Europa. A crítica italiana foi bastante negativa e incisiva em relação ao filme, especialmente devido aos estereótipos exagerados dos italianos. Confesso que imaginei que talvez fosse exagero da própria crítica, tal como aconteceu aqui à época do lançamento de Turistas (no qual um grupo de turistas era envolvido em uma trama de tráfico de órgãos no Brasil). Pois bem, acreditei porque a repercussão foi grande, mas fiquei com um pé atrás. Fui conferir e a verdade é que, de fato, o longa exagera nos estereótipos de maneira constrangedora.
Ok, Javier Barden interpreta um brasileiro, deixa a desejar no português e fala sobre costumes irreais para o Brasil. A licença poética permite, sem problemas. Mas o estereótipo italiano é levado ao extremo, além de alguns comentários do texto simplesmente não se encaixam no enredo. Em uma cena, por exemplo, Elizabeth, ao chegar à um determinado bairro, comenta que o lugar é muito perigoso e que um amigo foi roubado em um museu. Se a observação acrescentasse à história ou mesmo se estivesse em um contexto seria válido, mas a frase é jogada sem nenhuma necessidade. Pois é, nem todo mundo consegue fazer um trabalho exemplar como Woody Allen em seu Vicky Christina Barcelona no qual consegue aliar belas cenas turísticas à uma história consistente.
Pessoalmente confesso ser apaixonada pelo tema abordado em Comer Rezar Amar, pessoas que precisam sair de onde estão para, dessa maneira, encontrarem a si mesmas. Fui com vontade de gostar e de me envolver, mas diante de tantos poréns simplesmente não foi possível. Vale ressaltar que até por gostar tanto do tema, já vi filmes muito mais interessantes nessa mesma linha: My Blueberry nights, Pão e Tulipas e o mais próximo de Comer Rezar Amar, Sob o sol da Toscana. Mais próximo porque também se trata de uma adaptação literária de uma americana. No filme, após uma desilusão amorosa, a protagonista parte para a Itália onde decide recomeçar a sua vida. Apesar dessa proximidade temática, Sob o sol da Toscana se mostra mais interessante, consistente e maduro do que o filme em questão.
Apesar de tudo, Comer Rezar Amar apresenta um pacote que deve agradar à muitos (atores famosos, romance, lugares paradisíacos e à busca de si mesmo). Eu, no entanto, sugiro uma tarde de DVDs com os filmes sugeridos acima.
Ainda não li o livro (ganhei há cerca de uma semana), mas está na minha lista.
Agora? Otto (Certa manhã acordei de sonhos intranquilos). Completamente apaixonada por esse álbum.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Simplicidade cinematográfica

Isabel Coixet, a morte e a beleza de viver
Minha Vida Sem Mim (Mi Vida Sin Mi)
2003/Espanha/ Canadá/ 106min
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet, baseado em livro de Nancy Kincaid (Pretending the bed is a reft)
Elenco: Sarah Polley , Scott Speedman , Deborah Harry ,Mark Ruffalo , Leonor Watling
A morte é um tema recorrente nas artes. Diversas representações artísticas abordam essa temática a fim de retratá-la à sua maneira. Nada mais natural uma vez que a morte é palpável para qualquer ser humano, além de ser a única certeza absoluta que todo indivíduo tem na vida.
Indo um pouco mais adiante, uma história cujo ponto de partida é o momento em que uma jovem descobre que está prestes a morrer e então decide fazer uma lista de coisas que precisa realizar antes de deixar esse mundo não poderia ser mais simples. Especialmente no cinema, meio que já recorreu a esse plot outras vezes como, por exemplo, com Um Amor para recordar (A Walk to remember/ EUA/ 2002) que abordou o tema na adolescência e também com Antes de Partir (The Bucket list/ EUA/ 2007) cujo foco é a terceira idade.
Mas como acontece com muitas obras cinematográficas, vez por outra um cineasta consegue resgatar um tema recorrente e apresenta uma obra marcante e bem elaborada. Esse é o caso da espanhola Isabel Coixet que exatamente a partir desse plot, construiu o longa Minha vida sem mim.
Ann (Sarah Polley, com quem a diretora repete a parceria em 2005 em A Vida Secreta das Palavras) tem 23 anos e é mãe de duas meninas, Patsy e Penny. É casada com seu namorado da adolescência, Don, e a família vive em um pequeno trailer localizado no quintal da casa da mãe da jovem.
Don trabalha em empregos temporários construindo piscinas. Já Ann limpa uma universidade à noite. Apesar da vida difícil o casamento e a família são felizes, mas essa estabilidade está prestes a mudar quando ela descobre que tem um tumor e que lhe resta pouco tempo de vida.
Ann decide não falar com ninguém sobre a doença e faz uma lista das coisas que precisa fazer antes de morrer. A lista em questão é composta por desejos e necessidades comuns que poderiam ser até banais para a maioria das pessoas. Como por exemplo: colocar unhas postiças e mudar o cabelo.

Mas para Ann esses detalhes são relevantes. Ela teve que enfrentar a vida adulta muito cedo. Desde os 17 anos, quando descobriu a sua primeira gravidez, viu-se envolvida em uma vida familiar gratificante, mas que deixava quase (ou nenhum) tempo para ela mesma. Agora, Ann vai olhar para si mesma pela primeira vez e, sem esquecer daqueles que ama, vai colocar as suas necessidades em primeiro plano. Ela inicia então um processo de auto - descoberta e segue em busca de seus sonhos há tempos esquecidos.
Não se trata de uma história de heróis nem de modelos para a sociedade, mas sim de uma pessoa comum que precisa se conhecer e redescobrir a vida antes de morrer.
A produção foi fruto da El Deseo, produtora dos irmãos Augustín e Pedro Almodóvar e a direção de Coixet é precisa. Um tema como esse poderia resultar em um filme melodramático recheado de lições de moral. Ao invés disso, Minha vida sem mim é elaborado de uma maneira extremamente simples (mas nunca simplória) que se sustenta na narrativa em si, na competência dos atores e na realização técnica.
O filme segue uma estética naturalista que se apoia na aproximação do real. A fotografia procura registrar pessoas e objetos como eles seriam na realidade, o que também acontece com a maquiagem, figurinos e com a direção de arte. É como se tal decisão mostrasse que o verdadeiro foco estivesse na história em si, nos personagens e não na técnica do filme. O que não significa que a última tenha sido relegada ao segundo plano. Pelo contrário, ela é minunciosamente pensada e extremamente bem realizada, mas sempre em função da história e das emoções.
A montagem é fluida. Para isso, as cenas se sucedem de maneira natural sem mudanças ou cortes abruptos. Utiliza-se muito, por exemplo, o slow como uma ferramenta que mostra Ann em um ritmo distinto dos demais. Ela não está mais inserida na vida comum. Ela sabe que vai morrer logo e é guardiã desse segredo. Ela vive em um ritmo próprio que, apesar da proximidade da morte (ou até mesmo por isso), mostra-se mais lento do que os demais.

Para a composição dessa montagem “fluida”, utilizam-se planos longos sem muitos cortes e, principalmente, sem cortes rápidos e frenéticos tão comuns em filmes de ação e clipes musicais, por exemplo. São cenas repletas de slows e fades, instrumentos que ajudam a desacelerar o ritmo. Em contrapartida, as cenas se mostram mais dinâmicas em momentos de tensão como acontece, por exemplo, no momento em que Ann descobre que está doente. Nesse momento os cortes se apresentam um pouco mais rápidos do que no restante do filme e a montagem segue uma linha diferente. Passa a cortar de um local para esse mesmo local. Um pouco como acontecia na nouvelle vague quando se ia de um personagem para ele mesmo. Acontece, mas de uma maneira tão fluida que se torna natural.
A trilha sonora consegue estabelecer o clima do filme, além de pontuar a narrativa de maneira competente. Assim como acontece com a edição e com os demais aspectos técnicos, sem excessos. Em Minha vida sem mim, tudo é bem dosado.
Além disso, Coixet recorre diversas vezes ao artifício da câmera na mão. Câmera essa que se mostra furtiva, como se o espectador estivesse presente na ação observando tudo de perto. Em diversos momentos a ação é registrada em segundo plano, estando em primeiro plano algo aparentemente sem importância. Essa escolha pode representar o olhar do espectador que observa aquela ação como se a estivesse espiando. Ou ainda pode ser um reflexo do fato de a história não se mostrar completamente em primeiro plano. Há pontos óbvios como a morte anunciada e a necessidade de lidar com isso, mas a verdadeira história se desenvolve nas entrelinhas através das transformações sutis da personagem.
Sensível, mas não exagerado. Simples, mas não simplório. Intimista, contemplativo. Todos esses adjetivos se encaixam no trabalho em questão. Minha vida sem mim é tecnicamente bem elaborado, conceitualmente bem definido e apresenta uma história comovente e envolvente.
Agora? Juanes.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Poesia na estrada

Viajo porque preciso, volto porque te amo emociona e reavalia a linguagem cinematográfica
Viajo porque preciso, volto porque te amo
2008/ Brasil/ 75 min.
Direção: Marcelo Gomes e Karim Aïnouz
Roteiro: Marcelo Gomes, Karim Aïnouz
Elenco: Irandhir Santos
O cearense Karim Aïnouz e o pernambucano Marcelo Gomes são nomes relevantes no atual cenário cinematográfico brasileiro. O primeiro foi responsável por Madame Satã (2002) e O Céu de Suely (2006). Já o segundo dirigiu Cinema, aspirinas e urubus (2005). Em seus trabalhos, ambos retrataram o interior do nordeste brasileiro, cada um à sua maneira.
Em 2004 a dupla realizou o curta metragem Sertão de acrílico azul piscina, um registro observacional do sertão nordestino que se apresenta como uma semente do longa que os dois viriam a concluir em 2009, Viajo porque preciso, volto porque te amo.
A partir da necessidade de trabalhar juntos, os cineastas iniciaram uma jornada que durou cerca de dez anos até que o longa fosse concluído. Concebido inicialmente como um projeto referente às feiras do sertão e a relação entre elas e as feiras de outros locais do mundo, essa definição inicial sofreu rapidamente uma guinada quando Karim e Gomes decidiram registrar tudo que os emocionasse, sem um roteiro previamente definido.
Os dois passaram anos filmando e registrando momentos, paisagens e pessoas aleatoriamente até que, em 2003, decidiram começar a dar corpo ao que havia sido captado. Essa definição ainda levou alguns anos antes de ser concluída, mas o resultado é um filme poético, envolvente, emocionante e inovador.
A trama é muito simples: José Roberto é um geólogo de 35 anos que precisa viajar pelo sertão nordestino a fim de estudar a viabilidade da construção de um canal que resultará no desvio do rio do local. O filme se desenrola a partir do ponto de vista dele que, durante a viagem, registra sua percepção do que vê, pensa sobre o sertão e, principalmente, mergulha em seus sentimentos e no seu relacionamento que se mostra complexo para o espectador. A perspectiva é sempre de Roberto que nunca aparece fisicamente. O espectador apenas escuta a voz do personagem.
Apesar da simplicidade da premissa, Viajo... consegue ir além do que um filme comum o faria, apresentando-se como um longa experimentalista e inovador. Não pode simplesmente ser definido como um road movie uma vez que o personagem nunca se mostra fisicamente e que a história segue uma linha narrativa diferente da usual, também não pode ser definido estritamente como um documentário ou como uma ficção, pois as imagens captadas são reais, assim como as histórias secundárias. Mas José Roberto é ficcional, assim como o seu relacionamento e a sua narrativa. O filme é então tudo isso: road movie, relato, diário, documento e ficção. E desperta mais uma vez a discussão sobre as definições e gêneros cinematográficos, além de relembrar aos realizadores e aos espectadores que é possível ousar e experimentar através dessa arte.
As imagens são registradas a partir de suportes distintos, tais como super 8, máquinas fotográficas e filmadoras digitais, por exemplo. Através da “colagem” das diferentes imagens nessa colcha de retalhos imagética que se torna o filme, representa-se também o interior do personagem que, na medida em que avança na estrada, tenta se descobrir e se encontrar, além de tentar entender e aceitar que o seu relacionamento já não é mais o mesmo. Essa viagem também é para Roberto um meio de se reencontrar consigo mesmo, além de definir qual será o próximo passo. Decisão essa que nunca é simples após uma grande desilusão.
Não é comum que um filme tenha a assinatura de mais de um diretor, mas não é impossível. Nesse caso a dupla apresenta uma sintonia perfeita capaz de reverter esses dez anos de trabalho em um resultado consistente e arrebatador.Acompanhar José Roberto na sua viagem é deixar-se levar pelas emoções do personagem, é vivenciar o sertão e as pessoas que lá vivem, é mergulhar em si mesmo em busca da sua própria história, é se emocionar sem medo.
Agora? Los amigos invisibles.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Dupla inesperada

Mary e Max definem a verdadeira amizade
Mary e Max (Mary and Max)
2009/Austrália/ 92 min.
Direção: Adam Elliot
Roteiro: Adam Elliot
Elenco: Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana, Barry Humphries
O desenho animado é um estilo cinematográfico que vem fascinando adultos e crianças há décadas. Durante muitos anos o reinado absoluto desse setor ficou a cargo da Disney e, principalmente, das suas histórias e fábulas sobre princesas. Após a chegada do primeiro Toy Story (Toy Story, 1995) e da técnica de animação 3D aos cinemas, esse quadro começou a mudar e o reinado passou para a Pixar que atualmente lidera as bilheterias do setor, além de apresentar um trabalho consistente.
Paralelamente a essas duas vertentes, está a animação em stop motion, técnica que simula o movimento de objetos inanimados através da imagem. Apesar de ser um estilo executado em menor escala, filmes como O estranho mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas, 1993) estão aí para comprovar a eficiência e beleza dessa técnica.
Mary e Max se encaixa nesse último grupo. Animação em stop motion, o longa fala sobre amizade e também sobre encontrar o seu lugar no mundo. É uma trajetória de conhecimento e descobertas, principalmente no nível pessoal.

Mary é uma garotinha de oito anos que vive na Austrália. Ela não se encaixa muito bem na vida que leva. Seu pai passa os dias trabalhando em uma fábrica de saquinhos de chá e, em casa, dedica-se ao seu hobby, empalhar pássaros. Já a sua mãe só atravessa os dias acompanhada de uma garrafa de xerez. Mary, portanto não tem a companhia dos pais. Na escola não consegue fazer amigos e o fato de ter uma cicatriz marrom na testa não ajuda nesse processo. Na verdade só piora, afinal crianças podem ser muito maldosas em relação às diferenças. Além disso, Mary usa óculos e, segundo a sua mãe, está acima do peso ideal.
Max tem 44 anos e vive em Nova Iorque. Ele é um homem obeso que frequenta reuniões de gordinhos anônimos, mas que passa os dias comendo cachorros-quentes de chocolate – receita que ele mesmo inventou. Max, assim como Mary, não se encaixa. Não consegue se relacionar com as pessoas porque as considera muito complicadas e estranhas. Vive sozinho e o contato com certas memórias e sentimentos é capaz de desestabilizá-lo facilmente.
Em um golpe do acaso Mary escreve ao então desconhecido Max na esperança de – finalmente – fazer um amigo e, quem sabe, esclarecer algumas dúvidas acerca da vida através dessas conversas. Os dois passam a se corresponder e, através das tão aguardadas cartas, constroem uma amizade simples e verdadeira que os levará a encarar a vida de uma maneira diferente. Cada um à sua maneira vai ter que enfrentar seus demônios e dificuldades, mas dessa vez com um amigo para compartilhar os acontecimentos, ainda que ambos estejam tão distante geograficamente.
O longa aborda as duas realidades quase que como dois filmes distintos. Como Mary e Max não têm contato físico o mundo que cada um habita, apesar de certas semelhanças, é retratado esteticamente de maneira bem diferente. Tanto o bairro de Mary como o de Max se apresenta de maneira decadente. O primeiro tem um ar de antigo. Está repleto de casas velhas em mal estado de conservação e os objetos em cena também são velhos e mal cuidados. Já o segundo se encaixa em uma realidade mais moderna uma vez que se constitui de diversos arranha-céus. No entanto a decadência habita as ruas através da sujeira, da pobreza que está ao lado dos grandes edifícios e também através de alguns personagens de fisionomia triste.

A principal diferença entre os dois ambientes é a cor. A vida de Mary é basicamente sépia - como se a promessa de cores indicasse que alguma coisa estivesse prestes a acontecer, mas nunca acontece. Talvez essa promessa seja um reflexo do fato de ela ser uma criança com toda a vida pela frente. Já a vida de Max é basicamente retratada em preto e branco - como se a ausência de cores indicasse que dificilmente fosse acontecer alguma coisa e que seria melhor e mais racional perder as esperanças. Tal escolha pode representar a conformidade de alguém mais velho já cansado e sem grandes esperanças.
Essa paleta de cores só é quebrada por alguns elementos, com destaque para aqueles que são enviados de um personagem para o outro: em especial aqueles que Mary manda para Max. Cada vez que ele lê uma carta ou recebe um chocolate enviado pela sua amiga, o preto e branco que o rodeia é invadido pela tonalidade sépia da garotinha. É como se esse contato o enchesse de luz e trouxesse um novo significado à sua vida. E a amizade é isso mesmo: uma luz diferente, esperança, alegria, complemento. É encontrar-se no mundo junto a alguém que, de alguma maneira, o entende e o aceita como você é, defeitos e qualidades inclusos.
A animação é extremamente competente. O stop motion é muito bem realizado e cada personagem cativa por sua particularidade. A produção apostos em personagens visualmente simples e até mesmo cômicos em seus movimentos desengonçados e, ao contrário de animações do mesmo estilo como A Fuga das galinhas (Chicken Run, 2000), por exemplo, Mary e Max aposta em personagens visualmente mais grosseiros, mas não menos encantadores.
A animação impressiona pela riqueza de detalhes e pela direção de arte extremamente trabalhada. O longa também explora bem a movimentação de câmera em determinados momentos que põem o expectador em contato com os personagens e com as cidades em que cada um vive.
Apesar de se tratar de uma animação, essa, assim como muitas outras que vem sendo lançadas, é dedicada aos adultos. Apesar da ausência de cores que normalmente chama a atenção infantil, as crianças podem se encantar com a movimentação engraçada dos personagens e seus traços simples, mas os temas abordados são explorados de maneira adulta e as ideias retratadas nas entrelinhas também são. Questões como a amizade, o amor, a vida e a solidão, por exemplo, são elementos essenciais na história de Mary e Max.
Um enredo simples construído através de uma narrativa clássica que consegue abordar questões relevantes, além apresentar uma ótima realização técnica, mas que, acima de tudo, tem uma boa história para contar.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
sábado, 14 de agosto de 2010
Elite pré-concebida
Elite pré-concebida
Um Lugar ao Sol aborda a diferença de classes a partir de luxuosas coberturas

Um Lugar ao Sol
2009/ Brasil/ 71min.
Documentário
Roteiro, direção e produção: Gabriel Mascaro
Produção executiva: Stella Zimmerman e Rachel Ellis
Direção de produção: Lívia de Melo
Co-produção: Símio Filmes
Música: Iezu Kaeru e Luiz Pessoa
Som: Phelipe Cabeça
Fotografia: Pedro Sotero
Edição: Marcelo Pedroso
Em um país onde a miséria, a pobreza e a má distribuição de renda já foram abordadas pelas lentes cinematográficas tantas vezes, o cineasta Gabriel Mascaro vem na contramão com o seu trabalho, Um Lugar ao Sol. Documentário que também aborda as diferenças sociais, mas sob um novo prisma: a elite.
Gabriel Mascaro é um dos sócios da produtora pernambucana Símio Filmes e antes desse longa dirigiu outros dois documentários: KFZ-1348 (2008) e Avenida Brasília Formosa (2009). Desde o início dessa jornada vem apresentando um olhar particular e uma tendência a abordar temas não muito convencionais. O primeiro filme, por exemplo, traça a história de um fusca através de entrevistas com os nove proprietários do carro. Já Avenida Brasília Formosa narra um encontro entre personagens que estão tecendo uma rede na comunidade Brasília Teimosa, localizada no Recife.
Com Um Lugar ao Sol seu olhar aguçado se
volta à classe dominante brasileira. Mais precisamente aos moradores de coberturas de luxuosos prédios localizados em três estados: Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. O documentário se estruturou a partir de um livro no qual constam 125 nomes de proprietários desse tipo de imóvel. Desses, nove toparam participar do projeto. É através de conversas com esses “representantes” da classe que o documentário pretende abordar o ponto de vista dos financeiramente privilegiados, além de expor estilo de vida, problemas sociais e a verticalização da paisagem urbana, por exemplo.
Assim como seu trabalho anterior, KFZ, Um Lugar ao Sol apresenta um cuidado estético relevante através da fotografia bem trabalhada. A narrativa segue um ritmo lento dosado por imagens das cidades, de coberturas e também da construção de edifícios.
Esse cuidado visual se torna mais aparente nas cenas que quebram a narrativa. Aquelas que dão fôlego entre depoimentos ou mesmo que cobrem algumas falas dos entrevistados porque, no geral, o documentário segue a linha talking head, na qual os entrevistados ficam diante da câmera discorrendo sobre as questões lançadas a eles. Essa opção deixa a estrutura mais tradicional e se apresenta, inclusive, bastante diferente da escolha estética do diretor em KFZ, no qual o estilo talking head foi abandonado em função de uma narrativa mais poética e visualmente interessante.
Na mesma medida em que o documentário é feliz ao apresentar um ponto de vista pouco explorado na cinematografia nacional, a maneira como essa visão é apresentada ao espectador pode ser encarada como o principal problema do longa.
O posicionamento do diretor em relação ao seu objeto é muito claro e a maneira como os personagens são expostos levanta a questão: até que ponto é ético expor entrevistados ao ridículo a fim de registrar e – principalmente – confirmar um estereótipo em função de uma posição previamente definida? Sim, é louvável abordar a diferença social de maneira diferente do convencional, mas seria correto não dar nenhuma chance ao entrevistado para que o espectador o conheça melhor? Ou mesmo para que se surpreenda de alguma maneira?
As declarações dos entrevistados são, em sua maioria, impressionantes. Conscientemente ou não os moradores das coberturas expõem posições comprometedoras capazes de taxar essa “classe” como ignorante e indiferente.
É impressionante, de fato, ouvir uma pessoa de um elevado nível social se referir a trocas de tiros presenciadas do alto do seu apartamento como um acontecimento que “é trágico, mas é lindo”. Outro morador, parabeniza o diretor pela iniciativa de tratar um tema positivo ao invés de falar apenas sobre a miséria. Alguns personagens, a exemplo da senhora estrangeira que mora no Brasil há anos, desenvolvem um discurso mais consistente, mas essas pessoas não têm muito tempo na tela nem são utilizadas para guiar a narrativa.
O estereótipo é construído, mas Mascaro não tenta ir muito além do necessário para confirmar sua posição. Não procura conhecer melhor os personagens e o filme segue basicamente através das colocações referentes a viver no alto, o conforto de morar bem, a possibilidade de dispor de uma boa estrutura, a alienação e a superficialidade das pessoas dessa classe social.

Algumas críticas apontam que a própria metáfora de utilizar moradores de coberturas, ou seja, pessoas que vivem acima dos demais traçando, assim, um paralelo entre classes, poderia ser derrubada se levado em consideração que muitas favelas estão posicionadas no alto. Mas isso é apenas um detalhe, afinal casarões, condomínios fechados ou mesmo coberturas funcionam como um ponto de partida para abordar as diferenças sociais e, sob esse aspecto, a escolha do longa funciona.
Concebido inicialmente como um curta metragem, Um Lugar ao Sol chega às telas como uma proposta inovadora e, ao mesmo tempo, com idéias previamente concebidas, mas consegue levantar debates e questionamentos acerca da estrutura social brasileira e também sobre a estrutura do filme em si.
Agora? John Lennon.
Um Lugar ao Sol aborda a diferença de classes a partir de luxuosas coberturas

Um Lugar ao Sol
2009/ Brasil/ 71min.
Documentário
Roteiro, direção e produção: Gabriel Mascaro
Produção executiva: Stella Zimmerman e Rachel Ellis
Direção de produção: Lívia de Melo
Co-produção: Símio Filmes
Música: Iezu Kaeru e Luiz Pessoa
Som: Phelipe Cabeça
Fotografia: Pedro Sotero
Edição: Marcelo Pedroso
Em um país onde a miséria, a pobreza e a má distribuição de renda já foram abordadas pelas lentes cinematográficas tantas vezes, o cineasta Gabriel Mascaro vem na contramão com o seu trabalho, Um Lugar ao Sol. Documentário que também aborda as diferenças sociais, mas sob um novo prisma: a elite.
Gabriel Mascaro é um dos sócios da produtora pernambucana Símio Filmes e antes desse longa dirigiu outros dois documentários: KFZ-1348 (2008) e Avenida Brasília Formosa (2009). Desde o início dessa jornada vem apresentando um olhar particular e uma tendência a abordar temas não muito convencionais. O primeiro filme, por exemplo, traça a história de um fusca através de entrevistas com os nove proprietários do carro. Já Avenida Brasília Formosa narra um encontro entre personagens que estão tecendo uma rede na comunidade Brasília Teimosa, localizada no Recife.
Com Um Lugar ao Sol seu olhar aguçado se
Assim como seu trabalho anterior, KFZ, Um Lugar ao Sol apresenta um cuidado estético relevante através da fotografia bem trabalhada. A narrativa segue um ritmo lento dosado por imagens das cidades, de coberturas e também da construção de edifícios.
Esse cuidado visual se torna mais aparente nas cenas que quebram a narrativa. Aquelas que dão fôlego entre depoimentos ou mesmo que cobrem algumas falas dos entrevistados porque, no geral, o documentário segue a linha talking head, na qual os entrevistados ficam diante da câmera discorrendo sobre as questões lançadas a eles. Essa opção deixa a estrutura mais tradicional e se apresenta, inclusive, bastante diferente da escolha estética do diretor em KFZ, no qual o estilo talking head foi abandonado em função de uma narrativa mais poética e visualmente interessante.
Na mesma medida em que o documentário é feliz ao apresentar um ponto de vista pouco explorado na cinematografia nacional, a maneira como essa visão é apresentada ao espectador pode ser encarada como o principal problema do longa.
O posicionamento do diretor em relação ao seu objeto é muito claro e a maneira como os personagens são expostos levanta a questão: até que ponto é ético expor entrevistados ao ridículo a fim de registrar e – principalmente – confirmar um estereótipo em função de uma posição previamente definida? Sim, é louvável abordar a diferença social de maneira diferente do convencional, mas seria correto não dar nenhuma chance ao entrevistado para que o espectador o conheça melhor? Ou mesmo para que se surpreenda de alguma maneira?
As declarações dos entrevistados são, em sua maioria, impressionantes. Conscientemente ou não os moradores das coberturas expõem posições comprometedoras capazes de taxar essa “classe” como ignorante e indiferente.
É impressionante, de fato, ouvir uma pessoa de um elevado nível social se referir a trocas de tiros presenciadas do alto do seu apartamento como um acontecimento que “é trágico, mas é lindo”. Outro morador, parabeniza o diretor pela iniciativa de tratar um tema positivo ao invés de falar apenas sobre a miséria. Alguns personagens, a exemplo da senhora estrangeira que mora no Brasil há anos, desenvolvem um discurso mais consistente, mas essas pessoas não têm muito tempo na tela nem são utilizadas para guiar a narrativa.
O estereótipo é construído, mas Mascaro não tenta ir muito além do necessário para confirmar sua posição. Não procura conhecer melhor os personagens e o filme segue basicamente através das colocações referentes a viver no alto, o conforto de morar bem, a possibilidade de dispor de uma boa estrutura, a alienação e a superficialidade das pessoas dessa classe social.
Algumas críticas apontam que a própria metáfora de utilizar moradores de coberturas, ou seja, pessoas que vivem acima dos demais traçando, assim, um paralelo entre classes, poderia ser derrubada se levado em consideração que muitas favelas estão posicionadas no alto. Mas isso é apenas um detalhe, afinal casarões, condomínios fechados ou mesmo coberturas funcionam como um ponto de partida para abordar as diferenças sociais e, sob esse aspecto, a escolha do longa funciona.
Concebido inicialmente como um curta metragem, Um Lugar ao Sol chega às telas como uma proposta inovadora e, ao mesmo tempo, com idéias previamente concebidas, mas consegue levantar debates e questionamentos acerca da estrutura social brasileira e também sobre a estrutura do filme em si.
Agora? John Lennon.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Maldade Rasa

Meu malvado favorito
Empresa aposta na animação com longa interessante, mas nem tanto
Meu Malvado Favorito (Despicable Me)
EUA/ 2010/ 95 min.
Direção: Pierre Coffin, Chris Renaud
Roteiro: Ken Daurio, Cinco Paul
Elenco (do original): Steve Carell, Jason Segel, Russell Brand, Kristen Wiig, Julie Andrews, Will Arnett, Danny McBride, Jemaine Clement, Miranda Cosgrove, Jack McBrayer, Mindy Kaling, Ken Jeong
Gru estava acostumado à maldade e ocupava o primeiro lugar em se tratando de inimigos públicos, mas a chegada de Vetor, um malvado mais novo cheio de energia, ameaça a estabilidade maléfica de Gru.
Diante disso ele precisa bolar um ataque grandioso que o lance novamente ao topo. Decide, então, colocar em prática o seu plano mais audacioso: roubar a lua! Para tal, precisará da ajuda de três meninas órfãs que podem alterar o rumo dos seus planos.
De acordo com o site do Omelete (que realizou uma entrevista com Steve Carell, dublador de Gru no original), a animação é o marco inicial da Illumination Entertainment. Empresa fundada pelo ex-presidente da 20th Century Fox Animation (responsável por A Era do Gelo, Robôs e Alvin e os Esquilos, por exemplo), Chris Meledandri.
Enquanto animação e direção de arte, o filme vai bem e consegue construir um longa repleto de personagens e ambientes atraentes para as crianças. Apesar dos traços mais duros do que os da Pixar, por exemplo, o filme tem seu charme e, nesse sentido, é realizado de maneira competente.
O 3D também é bem dosado. O que é bom, afinal o ideal é que a técnica seja utilizada a favor do enredo e não como uma simples desculpa para a realização de um filme repleto de objetos voando da tela em direção ao espectador. Meu Malvado Favorito consegue utilizar essa ferramenta de maneira interessante e não extrapola. Destaque para a cena da montanha russa.

Apesar de apostar em algumas piadas e referências voltadas para os adultos, o foco do longa é o público infantil e isso talvez seja o seu maior mérito uma vez que as animações têm se tornado cada vez mais adultas. Ou seja: muitas cores vibrantes, piadas mais simples e muitos personagens fofinhos como, por exemplo, o exército de ajudantes amarelos e pequeninos do malvado do título. As três meninas também conseguem criar um elo de identificação com o público infantil.
Apesar de tudo isso o filme não se desenvolve tão bem. O problema é que ele é raso. Não há profundidade nem dos personagens e nem mesmo do enredo. Tudo é muito óbvio e simples. Além disso, não há um investimento relevante na carga emocional do longa.
[Spoiler!] Gru inevitavelmente se envolve com as três meninas e passa a nutrir um sentimento fraterno verdadeiro, no entanto essa transformação é pouco explorada e pouco desenvolvida.
Sendo assim, o longa tem seus méritos, mas deixa a desejar. No entanto é uma ótima pedida para as criancinhas.
Agora? Mombojó.
* Atenção para a semelhança física entre Gru e o Tio Chico da Família Adams.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Espionagem e perseguição
Jolie corre, salta, atira, mas não perde a pose.
Salt (Salt)
EUA/ 2010/ 100 minutos
Direção: Phillip Noyce
Roteiro: Kurt Wimmer
Elenco: Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor, Olek Krupa, Daniel Olbrychski, Hunt Block, August Diehl

O papel principal de Salt foi pensado inicialmente para Tom Cruise que não aceitou o projeto para se dedicar ao longa Encontro Explosivo ao lado de Cameron Diaz, filme que segue uma linha semelhante a esse, mas em uma vertente cômica. Após a desistência o papel sofreu algumas alterações e passou para Angelina Jolie que mantém a linha dura e a pose.
Salt é uma agente da CIA acusada por um desertor russo de ser, na verdade, uma agente dupla enviada aos EUA como parte de uma missão Russa. A partir dessa acusação se inicia uma perseguição repleta de explosões, troca de tiros, armações políticas e pessoais, além de muita ação superficial.
O filme se trata então de uma perseguição ininterrupta que tenta se sustentar na dúvida de quem de fato é Salt. Seria ela uma agente a favor dos Estados Unidos ou uma traidora russa?
A questão é que tudo no filme é superficial. Os diálogos são rasos, assim como as resoluções que se apresentam de maneira rápida ou ainda são explicadas textualmente através das falas dos personagens. Além disso, os próprios personagens não são aprofundados em momento algum. Para o público resta apenas fazer uma leitura simples, sem grandes – aliás, sem nenhuma – complicação.
Para Jolie resta manter a cara de má, ser sexy e dar conta do esforço físico. Ou seja, apenas caras e bocas. A atriz costuma alternar papéis dramáticos, que exigem uma maior preparação psicológica, com longas como esse onde ela pode fazer algo mais descontraído e cheio de emoção. Vamos esperar então que ela volte em outro filme mais que exijente.
Em compensação, Salt mantém a ação em alta constantemente. Se o seu interesse for sentar durante uma hora e quarenta minutos para um entretenimento sem compromisso que não exija esforço, o filme pode ser uma boa pedida. Só não espere mais nada que vá além disso.
Agora? Julieta Venegas.
Salt (Salt)
EUA/ 2010/ 100 minutos
Direção: Phillip Noyce
Roteiro: Kurt Wimmer
Elenco: Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor, Olek Krupa, Daniel Olbrychski, Hunt Block, August Diehl

O papel principal de Salt foi pensado inicialmente para Tom Cruise que não aceitou o projeto para se dedicar ao longa Encontro Explosivo ao lado de Cameron Diaz, filme que segue uma linha semelhante a esse, mas em uma vertente cômica. Após a desistência o papel sofreu algumas alterações e passou para Angelina Jolie que mantém a linha dura e a pose.
Salt é uma agente da CIA acusada por um desertor russo de ser, na verdade, uma agente dupla enviada aos EUA como parte de uma missão Russa. A partir dessa acusação se inicia uma perseguição repleta de explosões, troca de tiros, armações políticas e pessoais, além de muita ação superficial.
O filme se trata então de uma perseguição ininterrupta que tenta se sustentar na dúvida de quem de fato é Salt. Seria ela uma agente a favor dos Estados Unidos ou uma traidora russa?
A questão é que tudo no filme é superficial. Os diálogos são rasos, assim como as resoluções que se apresentam de maneira rápida ou ainda são explicadas textualmente através das falas dos personagens. Além disso, os próprios personagens não são aprofundados em momento algum. Para o público resta apenas fazer uma leitura simples, sem grandes – aliás, sem nenhuma – complicação.
Para Jolie resta manter a cara de má, ser sexy e dar conta do esforço físico. Ou seja, apenas caras e bocas. A atriz costuma alternar papéis dramáticos, que exigem uma maior preparação psicológica, com longas como esse onde ela pode fazer algo mais descontraído e cheio de emoção. Vamos esperar então que ela volte em outro filme mais que exijente.
Em compensação, Salt mantém a ação em alta constantemente. Se o seu interesse for sentar durante uma hora e quarenta minutos para um entretenimento sem compromisso que não exija esforço, o filme pode ser uma boa pedida. Só não espere mais nada que vá além disso.
Agora? Julieta Venegas.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Clássico para a vida toda

John Hughes marca gerações
"Bueller, Bueller"
Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller’s day off)
EUA/ 1986/ 109 min.
Roteiro e direção: John Hughes
Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Jennifer Grey, Charlie Sheen, Lyman Ward, Edie McClurg, Kristy Swanson.
Outro dia revi um dos meus filmes preferidos. O longa de 1986, Curtindo a vida adoidado. Esse clássico do cinema “adolescente” marcou a minha vida e, certamente, faz parte de muitas outras histórias pelo mundo afora.
O enredo é simples: Ferris Bueller (Matthew Broderick) é um jovem no seu último ano do colegial que quer aproveitar a vida. Ele é popular e sabe como conseguir tudo o que quer. Em um dia de semana ensolarado, decide matar aula com a sua namorada, Sloane (Mia Sara) e o seu melhor amigo, Cameron (Alan Ruck) para passar um dia se divertindo ao invés de ficar confinado entre as quatro paredes opressoras da sala de aula.Pronto, é isso. Mas como uma premissa tão simples pôde resultar em um filme tão incrível? Através de uma combinação perfeita de fatores.
Primeiro: o elenco é sensacional. Desde o protagonista até o mais simples coadjuvante, os atores são extremamente competentes. Além disso, a química entre eles é absoluta e coopera para que tudo flua melhor e de maneira convincente.
Outro ponto fundamental é o roteiro que consegue, a partir de uma sinopse simples, elaborar uma história consistente e bem amarrada. Os personagens são bem construídos e despertam a empatia necessária para que o público se identifique. As situações cômicas criadas são bem estruturadas e bem desempenhadas pelos atores.

Além disso, o texto em si é consistente e envolvente. O longa é conduzido
pelo próprio Bueller que, volta e meia, conversa diretamente com o espectador, assim como acontece em muitos dos filmes de Woody Allen como, por exemplo, Tudo pode dar certo. Essa conversa franca e direta entre o protagonista e a platéia ajuda a construir a cumplicidade necessária para que aqueles que acompanham o dia de folga de Ferris se sintam tão livres e capazes de fazer o que quiserem como o próprio adolescente. É como se o público fosse mais um da turma, um confidente.
Nas questões técnicas o longa também se destaca. A edição é dinâmica, consegue manter o ritmo e brinca com alguns conceitos, o que torna algumas cenas interessantes e não tão convencionais. Esse é o caso, por exemplo, da visita do trio ao museu. Quando os personagens aparecem em lugares diferentes através de cortes secos que não justificam a movimentação deles.
A fotografia também merece uma citação a parte. As cores e a composição dos quadros são lindas e se destacam. Não são utilizados apenas planos e contra-planos, por exemplo, como muitas comédias costumam fazer, exploram-se também ângulos mais trabalhados.Por fim há ainda o efeito identificação. Todas as pessoas querem se livrar da rotina, ainda que por um dia, para fazer algo de que realmente gostem, que dê prazer ao invés de apenas se preocupar com as contas, notas, enfim, com as obrigações. Afinal, a vida eventualmente chega ao fim e o que se leva? Curtindo a vida adoidado faz com que o espectador sinta que é possível fazer uma “loucura” dessa de vez em quando.
Nesse caso, o filme apresenta dois lados da mesma moeda: Ferris é o descolado que sempre consegue realizar as coisas do seu jeito. Ele tem charme, é corajoso, é esperto e parece ter sempre a sorte ao seu lado. Cameron é um jovem completamente neurótico e perturbado. Constantemente ameaçado pelo medo que sente do seu pai opressor. Ele é o contrário do seu melhor amigo, não costuma se permitir fazer loucuras, pois está sempre preocupado com as conseqüências. Já Sloane é uma compilação dos dois, o meio termo. É a sonhadora com os pés no chão. E o espectador é tudo isso: é vontade de fazer as coisas do seu jeito, é medo e apreensão, é sonho e realidade. Acredito que essa combinação de fatores faz com que o filme consiga tocar pessoas das mais variadas personalidades e estilos.
O filme é ainda a celebração do encerramento de um ciclo. Nesse caso, o término do colegial, o início de uma vida nova que trará diversas mudanças. É uma despedida feliz e a preparação para o resto da vida. Passamos por muitas transformações, inícions e finalizações de ciclos que esse filme pode representar.
A edição especial do DVD presenteia o espectador com uma série de entrevistas com o elenco. São extras simples, nada de extraordinário, mas há vários depoimentos interessantes sobre a produção que revelam curiosidades e informações importantes. Fica a dica.
PS) Ainda tem a cereja do bolo: uma das melhores cenas de todos os tempos: Bueller
cantando Beatles na passeata repleta de pessoas. "Save Farris!" É sempre bom revisitar os clássicos. Ah, vontade de ver novamente De volta para o futuro, Os Goonies, Karatê Kid (original) e tantos outros.
Agora? Chet Baker.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Caçada na floresta

Predadores
Robert Rodriguez retoma sucesso dos anos 80
Predadores (Predators)
EUA/ 2010/ 107 minutos
Direção: Nimród Antal
Roteiro: Alex Litvak, Michael Finch, Jim Thomas, John Thomas
Elenco: Adrien Brody, Alice Braga, Topher Grace, Oleg Taktarov, Walton Goggins, Louis Ozawa Changchien, Laurence Fishburne, Danny Trejo, Mahershalalhashbaz Ali
A verdade é que não sou fã dos filmes com o Predador. Não vi o primeiro, de 1987, com Arnold Schwarzenegger, nem o segundo, de 1990, com Danny Glover e, muito menos, Alien Vs. Predador (2004), mas ao acompanhar as notícias sobre a retomada da série com o novo Predadores confesso que o meu interesse foi, enfim, despertado.
Só o fato de um filme desse estilo trazer o oscarizado Adrien Brody como protagonista já era o suficiente para fazer com que eu realmente quisesse dedicar cerca de duas horas da minha vida para conferir o resultado, afinal, é inusitada – e interessante – a escolha de trazer um grande ator como ele para realizar um filme de ação. Além disso, o nome de Robert Rodriguez na produção também me convenceu.
Predadores se passa antes dos demais filmes da série. Aqui, um grupo heterogêneo de humanos especializados em matar é selecionados para um jogo, aliás, para uma caçada. Mas, nesse caso, eles são a caça e os verdadeiros caçadores e líderes do jogo são os predadores que se divertem através dessa perseguição desleal em uma floresta desconhecida pelos humanos e que apresenta características peculiares.
A proposta de retomar a série a partir de um novo ponto foi bem bolada e a sinopse
prometia um retorno interessante cheio de emoção. Mas, infelizmente, a promessa não se cumpre e o filme se perde em um roteiro muito mal elaborado constituído pelas piores falas de todos os tempos – Ok, talvez não de todos os tempos, mas o páreo é duro.Os atores se esforçam, mas é difícil constituir um personagem consistente quando não há nenhuma profundidade. Aquilo que é apresentado nos primeiros minutos de filme é mantido – com raríssimas e mínimas exceções – no decorrer da projeção. O elenco consegue se manter dentro das suas possibilidades, em especial Brody e Alice Braga, mas na verdade não há nada que se possa fazer.
Em compensação, as criaturas continuam interessantes – tanto os próprios predadores como as poucas outras que participam do filme. A presença de Brody também acrescenta ao longa, especialmente por não se tratar de um homem não tão grande. Certo. Bem menor do que os astros de ação como o próprio Schwarzenegger. Essa sua particularidade torna tudo mais interessante.
A história se trata basicamente de uma perseguição de gato e rato sem nenhuma profundidade. O que poderia não ser um problema, mas além disso, o óbvio é verbalizado a todo momento, o que deveria ter sido resolvido através de imagens ou, pelo menos, de diálogos consistentes e interessantes que conseguissem acrescentar algo à narrativa, ao invés de dizer apenas o que já se sabe através de frases de efeito tão rasas quanto um pires – ou ainda mais rasas.
Um ponto alto é o fato de o filme não exagerar nos efeitos especiais, mas nesse mesmo quesito o longa perde alguns pontos uma vez que uma parte dos poucos efeitos utilizados não impressionam e estão aquém do que se vê hoje em dia. Por exemplo: atenção ao momento em que o grupo percebe que a floresta em questão é mais do que uma simples floresta.
Apesar dos grandes furos e da tendência à comédia, o filme deve agradar aos fãs da série que, inclusive, podem se animar ainda mais porque a seqüência já foi confirmada.
Quanto a mim, confesso, vou conferir os dois primeiros filmes da série.
Agora? Norah Jones.
Marcadores:
filmes,
resenha fílmica
Assinar:
Comentários (Atom)












