terça-feira, 5 de outubro de 2010

Auto - ajuda rasa


Comer Rezar Amar
Adaptação entrega o básico, mas decepciona


Comer Rezar Amar (Eat Pray Love)
EUA/ 2010/ 133 min
Direção: Ryan Murphy
Roteiro: Ryan Murphy, Jennifer Salt
Elenco: Julia Roberts, Billy Crudup, James Franco, Richard Jenkins, Javier Bardem, David Lyons...

A jornalista e escritora americana, Elizabeh Gilbert, decidiu fazer uma viagem libertadora após algumas complicações e decepções. Durante esse período visitou a Itália, a Índia e a Indonésia. Partiu para um jornada individual que abrangeu diversos setores da sua vida. Em especial, aqueles que intitulam a obra, o gastronômico, o espiritual e o sentimental. As memórias dessa aventura compuseram o livro Comer Rezar Amar que virou um best-seller com mais de oito milhões de exemplares vendidos. O livro figurou na lista de mais vendidos do New York Times por mais de um ano e foi traduzido para 36 idiomas. Agora, foi adaptado para o cinema.

O problema é que no cinema a coisa desanda e a sensação que fica é que a proposta foi filmada, mas que, ao chegar à finalização, a equipe teve preguiça de concluir o trabalho.

No filme, Julia Roberts dá vida à escritora em um papel que não exige muito da atriz que já está acostumada à esse estilo de longa e, apesar do seu já conhecido e consagrado carisma, não consegue salvar o longa. Além dela, o elenco também conta com importantes participações como James Franco (Homem Aranha) e Javier Barden (Mar Adentro), mas a contribuição de bons atores também não consegue segurar o texto fraco e a falta de profundidade do enredo.

Assim como acontece com uma boa parte das adaptações literárias para às telas, o filme cai no erro de recorrer demasiadamente a recursos verbais. Cenas que poderiam ser facilmente compreendidas através da atuação acabam redundantes quando sobrepostas pela narração em off da personagem (à exemplo as cenas iniciais que pretendem retratar o que Elizabeth sente e pelo que passa internamente ao estar casada com o seu primeiro marido). Isso acaba fazendo com que o longa perca um pouco da dramaticidade e acabe mais didático do que o necessário.

Os 133 minutos de projeção se mostram intermináveis e, apesar da longa duração, os personagens e até mesmo a história de Elizabeth continuam extremamente rasos, após o término da exibição. A personagem começa confusa, precisando de uma mudança drástica, segue viagem e vive as experiências que precisa, mas o espectador não consegue ir muito além do que essa primeira camada oferece.

Além disso, a própria montagem deixa a desejar. Não trabalha bem as imagens e eventualmente adota cortes abruptos que não condizem com o ritmo do longa. Essa mesma falta de sincronia pode ser observada na trilha sonora que, apesar de belas músicas, nem sempre consegue casar imagem e som. Os elementos portanto se mostram um tanto fora do contexto.

A fotografia é interessante, em especial nas cenas referentes à gastronomia. Me fez pensar, inclusive, em Julie e Julia. Filme que tem esse tema como foco e, no entanto, não explora a beleza da gastronomia. Nesse quesito Comer Rezar Amar consegue desempenhar um bom trabalho.

Outro aspecto extremamente comentado a respeito da adaptação é o uso exagerado de estereótipos. Antes de ser lançado no Brasil o filme foi exibido na Europa. A crítica italiana foi bastante negativa e incisiva em relação ao filme, especialmente devido aos estereótipos exagerados dos italianos. Confesso que imaginei que talvez fosse exagero da própria crítica, tal como aconteceu aqui à época do lançamento de Turistas (no qual um grupo de turistas era envolvido em uma trama de tráfico de órgãos no Brasil). Pois bem, acreditei porque a repercussão foi grande, mas fiquei com um pé atrás. Fui conferir e a verdade é que, de fato, o longa exagera nos estereótipos de maneira constrangedora.

Ok, Javier Barden interpreta um brasileiro, deixa a desejar no português e fala sobre costumes irreais para o Brasil. A licença poética permite, sem problemas. Mas o estereótipo italiano é levado ao extremo, além de alguns comentários do texto simplesmente não se encaixam no enredo. Em uma cena, por exemplo, Elizabeth, ao chegar à um determinado bairro, comenta que o lugar é muito perigoso e que um amigo foi roubado em um museu. Se a observação acrescentasse à história ou mesmo se estivesse em um contexto seria válido, mas a frase é jogada sem nenhuma necessidade. Pois é, nem todo mundo consegue fazer um trabalho exemplar como Woody Allen em seu Vicky Christina Barcelona no qual consegue aliar belas cenas turísticas à uma história consistente.

Pessoalmente confesso ser apaixonada pelo tema abordado em Comer Rezar Amar, pessoas que precisam sair de onde estão para, dessa maneira, encontrarem a si mesmas. Fui com vontade de gostar e de me envolver, mas diante de tantos poréns simplesmente não foi possível. Vale ressaltar que até por gostar tanto do tema, já vi filmes muito mais interessantes nessa mesma linha: My Blueberry nights, Pão e Tulipas e o mais próximo de Comer Rezar Amar, Sob o sol da Toscana. Mais próximo porque também se trata de uma adaptação literária de uma americana. No filme, após uma desilusão amorosa, a protagonista parte para a Itália onde decide recomeçar a sua vida. Apesar dessa proximidade temática, Sob o sol da Toscana se mostra mais interessante, consistente e maduro do que o filme em questão.

Apesar de tudo, Comer Rezar Amar apresenta um pacote que deve agradar à muitos (atores famosos, romance, lugares paradisíacos e à busca de si mesmo). Eu, no entanto, sugiro uma tarde de DVDs com os filmes sugeridos acima.

Ainda não li o livro (ganhei há cerca de uma semana), mas está na minha lista.

Agora? Otto (Certa manhã acordei de sonhos intranquilos). Completamente apaixonada por esse álbum.

Um comentário:

Bruno Costa disse...

Esse filme é realmente 'broxante'. Pensei que fosse ver uma história que ensinasse a superação mas acabei vendo uma história que ensina as pessoas a se conformarem.