quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Conversando durante o filme


Li ontem esse texto de Bruno Yutaka Saito na Ilustrada no cinema. Achei interessante e decidi compartilhar.

"Conversando durante o filme

Você fala alto na sala de cinema? Ou você respeita aqueles que dividem a sessão com você, e procura não soltar um pio durante o filme?

Sempre fui da turma que se irrita com o blablablá no cinema. Soltei muitos “psiu”, “chiu” e várias outras onomatopeias. Na época da faculdade, eu dava a cara a tapas. Não falava nada, apenas olhava torto para a pessoa que tagarelava. O resultado era pífio: eu é que virava o alvo de escárnio de tal pessoa por ser tão “sério”.

Voltei a pensar no assunto recentemente, por vias diferentes, quando fui ver “Vincere” e “O Pequeno Nicolau”.

No épico/ópera de Marco Bellocchio, o próprio cinema é um dos personagens. Em várias cenas vemos a representação de salas de exibição nos tempos do cinema mudo. Falar e se exaltar durante uma sessão não parecia, na visão de Bellocchio, ser algo assim tão criminoso.

Já “O Pequeno Nicolau” assisti no Espaço Unibanco Augusta, um espaço que, teoricamente, é frequentado por cinéfilos, que não gostam muito de gente falando alto. Para minha surpresa, a sessão foi uma festa da uva. Era uma sessão noturna durante a semana; a plateia se esgoelava de rir e gritava; alguns comentavam cenas e vários até batiam palmas.

Mas, desta vez, e já faz algum tempo, eu não surtei.
Cito algumas experiências que me fizeram repensar meus preconceitos e o dogma do silêncio do cinema.

Há alguns anos fui numa sessão para crianças de algum filme da Pixar (não me lembro qual). Parecia a hora do recreio. Várias crianças ficavam literalmente de costas para a tela. Outros corriam pela sala e brincavam de pega-pega. O barulho delas era tão alto quanto o som do filme. Era um cinema de shopping, claro.

Lembrei na hora o que dizem os livros sobre história do cinema. Quando surgiu, em fins do século 19, o cinema era uma curiosidade, uma nova técnica, mais uma das atrações das feiras. Tento imaginar como seriam as sessões dos filmes pioneiros. Há, claro, o contra-argumento de que o primeiro cinema não era necessariamente uma arte. E que o cinema só virou cinema quando começou a narrar histórias.

Em outra ocasião, fui numa sessão especial de “Rocco e Seus Irmãos”, filme de 1960 de Luchino Visconti. A sessão não estava muito cheia, devia ser eu mais meia dúzia de gatos pingados e um grupo de umas dez senhoras.

Do começo ao fim do filme (que é longo, quase três horas de duração) aquelas senhoras não paravam de conversar. E não era apenas uma conversa. Parecia que tinha uma cantina italiana na sala. Elas comentavam quase todos os segundos do filme, como se fossem um Galvão Bueno em Copa do Mundo.

Mas “Rocco...” em si é uma gritaria só. Os personagens gesticulam e também falam alto, como diz o estereótipo italiano.

Como eu queria muito rever o filme em tela grande, me resignei. E, para minha surpresa, a irritação passou, depois de alguns “xius” ignorados. Tela e plateia viraram uma coisa só, em determinado momento.

Meu lado bom samaritano falou mais alto. Comecei a pensar que aquelas senhoras deviam ser jovens quando viram “Rocco...” (1960) pela primeira vez. Que, naquela época, eram adolescente apaixonadas por Alain Delon. E que aquele retorno ao cinema, àquela altura da vida, era uma maneira de relembrar a própria (e agora distante) juventude. Elas podiam estar velhas, frustradas com a vida. Mas Alain Delon continuava lá, belo e congelado no tempo.

Se hoje eu aprovo o blablablá no cinema? Claro que não. Respeito ao próximo, e não só no cinema, é ato essencial. Mas, dependendo da situação e do lugar não há problema. Não costumo pedir silêncio em sessões de blockbusters em cinemas de shopping. Lá, eu é que sou o estranho no ninho."

-> No meu caso não consegui superar a frustração de dividir salas de cinema com pessoas incapazes de fazer silêncio durante aproximadamente duas horas. Confesso! Nem sei se um dia conseguirei. Acho que não. Não fui feita para o convívio social, fato!

Ok, não surto se forem crianças porque elas ainda têm uma desculpa, mas os demais? Paciência, né? Não é pedir demais para que as pessoas compreendam que aquele se trata de um espaço público, portanto fazer silêncio, não atender celular, não perturbar os demais e respeitar o próximo são atitudes fundamentais.

Infelizmente as minhas idas ao cinema têm sido cada vez piores. Ok, concordo com o fato de que em cinema 'alternativos' é mais difícil ter esse tipo de dor de cabeça, mas o fato de se tratar de um multiplex não justifica. Ok, rir, levar susto, até bater palmas - vá lá! - tudo bem, mas as demais atitudes comentadas antes são inadimissíveis - pelo menos para mim.

Sempre fui chata com isso. Ia ao cinema com os meus amigos depois do colégio e até mesmo com eles (a parte descontrolada, pelo menos) eu não tinha paciência.

Um desabafo então. É meio frustrante.

Independentemente disso, o texto é bonito, interessante e delicado, compartilho então.

Agora? Tryo.

Um comentário:

António Rosa disse...

Gostei. Partilhei no Facebook.